segunda-feira, 26 de março de 2012

A INVESTIGAÇÃO CRIMINAL DA MODERNIDADE III (Cognição Investigativa)


Celso Moreira Ferro Júnior  e George Felipe de Lima Dantas
Etimologicamente [1], a palavra "cognição" deriva das expressões latinas "cognitio" ou "cognoscere", que por sua vez conotam as operações da mente humana que permitem estar ciente da existência de objetos, pensamentos ou percepções. Nela estão incluídos aspectos da percepção, pensamento e memória. A cognição é, portanto, um processo pertinente às operações mentais do intelecto. Já a inteligência seria a faculdade de aprender, com a cognição estando relacionada aos métodos ou processos envolvidos nessa "aprendizagem inteligente".
Com a emergência da Tecnologia da Informação (TI), surge agora, também, uma nova inteligência, a chamada Inteligência Artificial (IA). A IA representa uma tecnologia desenvolvida a partir da moderna Ciência da Computação[2], constituindo-se em um dos seus ramos atuais, relacionado com a possibilidade dos computadores adquirirem pseudo-faculdades e pseudo-comportamentos cognitivos inerentes ao que se convencionou chamar "inteligência humana".
A expressão AI ("Artificial Intelligence") teria sido cunhada em 1956 por John McCarthy, pertencente ao conhecido MIT -- Massachusetts Institute of Technology (Instituto de Tecnologia de Massachusetts).
Podem ser identificadas quatro áreas de aplicação da IA: (i) jogos por computador (xadrez, por exemplo); (ii) sistemas especialistas que incluem a programação de computadores para instrumentar a tomada de decisão (diagnósticos criminais e análise de vínculos, por exemplo); (iii) linguagens naturais, que permitem a interação em língua corrente entre humanos e computadores; (iv) robótica, que envolve a programação de computadores para que vejam ouçam e reajam a determinadas situações de igual maneira que seres humanos e, finalmente; (v) redes neurais ou sistemas que simulam a inteligência humana a partir do estabelecimento de conexões virtuais semelhantes àquelas existentes entre células do sistema nervoso central, ou seja, redes de pontos de interconexões, ou de vínculos.
Próximo disso é o caso dos Sistemas de Análise de Vínculos. A última das quatro áreas acima-citadas seria especificamente aplicável em auxílio à cognição humana aplicada na AV e Análise Criminal (AC). A visualização da informação, ou "inteligência visual", é parte essencial da inteligência humana, em sua capacidade específica de percepção ou cognição a partir de símbolos, códigos e sinais como os utilizados em aplicativos da AV.
 As teorias cognitivas que dão fundamento ao estudo da IA estabelecem comparações entre "input" (entrada de dados para processamento), "processamento" e "output" (processamento e saída do resultado do processamento), emulando a percepção, pensamento e processo decisório englobados no funcionamento e produção de conhecimento pela mente humana.
De acordo com FEW (2004), algumas das oportunidades mais promissoras para a inteligência de negócios, na atualidade, podem ser percebidas a partir de tecnologias que estão apenas começando a explorar um incrível potencial de visualização da informação.
Few observa ainda que não é todo tipo de informação que se presta àquele tipo de análise e apresentação. Ele aponta que a "descoberta efetiva", algumas vezes, envolve "ler através de pilhas de documentos textuais, ou de laborioso estudo, linha após linha, de detalhes de relatórios apresentados sob forma tabular". No mesmo artigo de referência, observa que freqüentemente o melhor da nossa compreensão emerge quando olhamos para "desenhos dos dados". Segundo ele, isso ocorreria em função da visão ser o sentido dominante nos seres humanos.
 No mesmo passo, aquele mesmo autor ensina que ao examinarmos dados propriamente apresentados visualmente, algumas vezes experimentamos "rasgos de reconhecimento" que somente ocorreriam após horas de laborioso estudo (sem maiores estímulos visuais) para possibilitar a mesma espécie de "descoberta". Tal descoberta seria o ápice do processo cognitivo.
Expressando de outra forma ainda, a cognição seria o elemento propulsor da consecução de processos sistêmicos e continuados de coleta da informação, tal como hoje pode ocorrer extensamente com a aplicação de TI. Isso ocorreria de tal maneira que ficasse facilitada a interpretação e construção do conhecimento.
PROSBST ET al. (2002) apontam que, ao contrário de fazer distinções nítidas entre dados, informações e o conhecimento resultante da sua análise e interação, pode ser mais útil considerá-los, todos, como partes de uma série contínua, com os dados sendo considerados em uma extremidade e o conhecimento na outra. Assim, partindo da reunião de sinais esparsos, poderiam ser formados padrões cognitivos sobre os quais as ações institucionais de uma determinada atividade-fim seriam executadas, como  acontece nas instituições que se valem da investigação na sua atividade-fim. 
As habilidades, técnicas e conhecimentos, para tanto, só podem ser lentamente adquiridos pelos seres humanos. Elas se desenvolvem ao longo do tempo, por intermédio de um processo em que agregados parciais de informações são reunidos e interpretados. Ou seja, a elaboração do chamado "conhecimento complexo" só pode ocorrer em uma lenta progressão ao longo de um contínuo de dados, informações e tempo de reflexão propriamente dito. 
Já segundo HAYES e ALLINSON (1994) a cognição está relacionada com a maneira como as pessoas adquirem, armazenam e utilizam o conhecimento. Em tal contexto, a cognição pode ser interpretada como a busca, processamento e utilização de informações, gerando finalmente um significado efetivo de conhecimento para as organizações.
A criação de significado começa quando ocorre alguma mudança no ambiente da organização, conforme explica CHOO (2003), provocando perturbações ou variações nos fluxos de experiência, que terminam assim por afetar os membros da organização considerada. Essa mudança, essencialmente ecológica (ambiental), exige que os membros da organização tentem entender diferenças e determinar seu significado.
Ao tentar entender o sentido dessas mudanças ou diferenças, os agentes da organização podem isolar parte delas para um exame mais detalhado. Necessário ter em conta, repetindo, que a cognição é um processo mental humano associado com a análise e o processamento da informação para resolução de problemas e tomada de decisão. Colocado de outra forma, a cognição envolve processos desenvolvidos pelas organizações para identificar padrões e tendências, captar dados e organizar a informação em bancos de memória, com tudo isso possibilitando a realização de diagnósticos e produção de conhecimento na esfera de atividades das organizações.
CHOO, C.W. A Organização do conhecimento: como as organizações usam a informação para criar significado, construir conhecimento e tomar decisões. São Paulo: Editora Senac, 2003, p. 33-34.
FEW, Stephen, A better view into relationships. Disponível em: . Acesso em 09 jul. 2005.
HAYES, J; ALLINSON, C. Cognitive style and its relevance for management practice. London: British Journal of Management, vol. 5, n.1, p.53-71, 1994.
PROBST, Gilbert; RAUB, Steffen; ROMHARDT, Kai. Gestão do conhecimento - os elementos construtivos do Sucesso. Editora Bookman, 2002, p.63-64. 17.

CELSO MOREIRA FERRO JÚNIOR

Advogado

Consultor em Segurança, Análise de Riscos, Inteligência e Contra-inteligência.

Delegado de Polícia
Civil do Distrito Federal Aposentado.

Mestre em Gestão do Conhecimento e Tecnologia da Informação na Universidade Católica de Brasília.
Pós-graduação (Especialista) em Gestão de Tecnologia da Informação na Universidade de Brasília UNB;
Pós-graduação (Especialista) em Inteligência Estratégica UNIEURO.
Pós-graduação (Especialista) em Polícia Judiciária na APC/UCB;
Graduação em Direito pelo Centro Universitário do Distrito Federal, atual UDF, 1987.

Formação Complementar
Advanced Management Course - International Law Enforcement Academy. EUA. 2007.
Advanced Course Inteligence - IMI, Israel. 2002
Curso Superior de Polícia. Academia de Polícia Civil do
Distrito Federal.
Operações de Inteligência. Vertente: Planejamento de
Operações de Inteligência. ABIN. 2000.
Procedimentos de Inteligência. Vertente: Análise.
ABIN. 2001.
Ciclo de Estudos de Política e Estratégia da Associação dos
Diplomados da Escola Superior de Guerra ADESG/UNB

Concentração de Estudos em Gestão do Conhecimento, Ciência da Informação, Inteligência Policial, Inteligência Tecnológica, Interceptação Telefônica e Ambiental, Cognição Investigativa, Análise de Vínculos e Inteligência Organizacional.

Autor dos Livros “A Inteligência e a Gestão da Informação Policial”, Editora Fortium, e, “Segurança Pública Inteligente” Editora Kelps.

Conferencista em vários Seminários e Eventos Nacionais e Internacionais sobre Segurança Pública. Palestrante e docente em diversos cursos de formação de agentes de segurança pública e em diversas Instituições de Ensino Superior (IES), mais recentemente do Núcleo de Estudos em Defesa, Segurança e Ordem Pública (NEDOP) do Centro Universitário do Distrito Federal (UniDF). Diretor Científico Adjunto do Instituto Brasileiro de Inteligência Criminal INTECRIM.

Coordenou e executou na Polícia Civil Distrito Federal importantes projetos na área de Tecnologia e Inteligência.

Comandou as ações Repressão ao Crime Organizado, Inteligência Policial, Operações Especiais, Repressão a Sequestros, Crimes Contra a Administração Pública, Crimes Tecnológicos, Análise Criminal, Planejamento e Logistica Operacional, Comunicação Organizacional, Controle de Armamento, Munições e Explosivos, Operações Aéreas e Delegacia Eletrônica.