sexta-feira, 30 de abril de 2010

A COMUNICAÇÃO E A INTELIGÊNCIA DA ORGANIZAÇÃO POLICIAL

A comunicação é um componente da Inteligência Organizacional que está além das transmissões em redes de computação e informativos internos administrativos. Refere-se também aos recursos disponíveis, e quase todos de caráter verbal, como a propaganda, divulgação da imagem e fixar a identidade da organização.
Contempla recursos de propaganda, habilidade de produzir contrapropaganda desenvolver ações relativas à desinformação. Não se resume simplesmente no ato de realizar contatos com a imprensa, mas definir também procedimentos para os discursos formais de diretores, processos para enunciar a política e a estratégia institucional, bem como promover a difusão e a publicação de resultados. Até aqueles atos mais sutis, normalmente não entendidos ou não considerados expressivos, como os da visualidade da organização e da gestualidade dos dirigentes, a arquitetura das instalações físicas, a postura e vestimenta das pessoas, o atendimento acessível e celeridade de serviço, são importantes.
Em síntese, é a forma de transmissão de informações e conhecimentos que flui em uma organização ou fora dela, entre atores humanos e em sistemas, além daquelas trocas que ocorrem entre uma organização e seu ambiente formal de relação profissional (imprensa, comunidade, órgãos de governo etc.).
É evidente que a presença de processos de comunicação não deve ser entendida apenas como complementos da estratégia organizacional, mas sim como componentes essenciais na construção de uma estratégia comum.
A comunicação organizacional necessita ser entendida de maneira integral, como um componente que atravessa todas as ações da organização e configura de forma permanente, a construção da cultura e a identidade. Cada vez mais se torna evidente como os processos de comunicação contribuem para desenvolver formas de inter-relação mais participativas e, portanto, mais comprometidas, dando maior flexibilidade às organizações como base de sua permanente transformação e facilitando sua interação social de modo responsável para conjugar seus interesses com as condições culturais, econômicas e políticas nas quais se movem (CARDOSO, 2006).
Assim, surgem novas dimensões para a comunicação organizacional, que a vejam como um processo amplo, que se confunde com a própria estratégia da organização, e não a restringe apenas às situações internas da organização ligadas a atos de pessoas e departamentos.
Na definição de Lévy (1993), comunicação são palavras, frases, letras, sinais ou caretas que interpretam, cada um à sua maneira, a rede de mensagens da organização que influi sobre o significado das mensagens futuras. Um sistema de comunicação significa uma teia de relações com características de rede de informações. O conhecimento como rede tem sido a metáfora mais adequada, não importa muito, portanto, onde estão depositadas as grandes massas de informações. O que verdadeiramente interessa é que elas transitem, cresçam, aperfeiçoem-se na interconexão e sejam colocadas à disposição no momento certo, para as pessoas certas, na medida adequada para nos ajudar a resolver questões específicas.
A quantidade de informações existentes em organizações policiais que pode ser transformada em conhecimento é imensa. Por isso mesmo é fácil perceber que o foco da questão, nos dias atuais, não é mais a quantidade de informação produzida, mas sim a qualidade e a abrangência da informação e a estrutura de comunicação que permite seu aproveitamento pela organização. A comunicação e a estrutura da informação referem-se à condição de transformar a imensa massa de informações em conhecimento pertinente.
A comunicação implica uma estrutura de movimento informacional no espaço sem fronteiras. A comunicação estende suas ligações em forma de tentáculos num ambiente distribuído de conhecimentos. Portanto, numa dimensão coletiva, a estrutura de informação na comunicação refere-se ao compartilhamento entre todos, na medida em que cada nova informação e conhecimento acumulado pelo sistema promove uma interação de diviersos setores.
A necessidade de interação com o movimento das informações nos remete a uma idéia e dimensão de ciberespaço, como na forma do hipertexto, considerando aqui os aspectos de organização de conhecimentos, dados, informações e comunicação de forma não-linear (FACHINELI, RECH, MATTIA, 2005). Neste ponto de vista, o hipertexto é um dispositivo de representação e de comunicação que pode ser utilizado como metáfora para a compreensão do processo comunicacional e funcionamento do sistema em rede da organização.
Desta forma, numa organização policial a comunicação produz um universo de sentido circular da comunicação, ou seja, cada informação ou cada conhecimento novo gerado estimula toda a rede da organização policial e contribui para a remodelação da rede.
Participar de uma rede organizacional envolve, portanto, algo mais do que apenas trocar informações ou informes a respeito dos trabalhos que um grupo realiza isoladamente. Esta rede significa comprometer-se a realizar conjuntamente ações compartilhadas anexando valor e atuando de forma flexível, transpondo, assim, fronteiras geográficas, hierárquicas, sociais ou até políticas.
A constituição de uma teia de relações em torno de objetivos delimitados e fortemente compartilhados, articulada para a concretização de atividades diversas e mutáveis, amplia o campo de ação das organizações, gerando aumento do potencial competitivo (AYRES, 2001).
Considerando o contexto da investigação criminal, a comunicação produz uma malha e tráfego de informações compartilhadas, ao mesmo tempo em que contribui para a compreensão dos processos investigativos inerentes ao fenômeno criminal como um todo, potencializando toda a atividade.

AYRES, B. R.C. Os centros de voluntários brasileiros vistos como uma rede organizacional baseada no fluxo de informações. Revista de Ciência da Informação, v.2, n.1, fev/2001.
CARDOSO, O. O. Comunicação Empresarial Versus Comunicação Organizacional: novos desafios teóricos. 2006. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rap/v40n6/10.pdf. Acesso em: 23/07/2006.
FACHINELLI, A. C., RECH J. e MATTIA, O. M. A Dinâmica da Informação na Comunicação Organizacional: A Perspectiva do Hipertexto e da autopoiese1. Universidade de Caxias do Sul (UCS). 2005. Disponível em: http://sec.adaltech.com.br/intercom/2005/resumos/R1647-1.pdf. Acesso em: 23/07/2007.
LEVY, Pierre. As Tecnologias da Inteligência: O Futuro do Pensamento na Era da Informática. Editora 34. 13ª Edição em 2004. São Paulo. 1993.

3 comentários:

Manoel disse...

Caro professor Celso Ferro, parabenizo-lhe pelos excelentes textos acerca da inteligência e a importancia desta para o segmento segurança pública. Faço questão de ler todos os seus artigos, eles agregam valores significativos à minha atividade laborativa.

Um abraço,
Manoel Vieira Filho

Manoel disse...

Caro professor Celso Ferro, parabenizo-lhe pelos excelentes textos acerca da inteligência e a importancia desta para o segmento segurança pública. Faço questão de ler todos os seus artigos, eles agregam valores significativos à minha atividade laborativa.

Um abraço,
Manoel Vieira Filho

Candido disse...

EXCELENTE TEXTO DE AUTORIA DE UM PROFISSIONAL DE RECONHECIDA COMPETÊNCIA.
O TEMA COMUNICAÇÃO INTERNA E EXTERNA , TÃO POUCO OU NADA EXPLORADA, É DE REAL INTERESSE PARA A SEGURANÇA PÚBLICA.

CELSO MOREIRA FERRO JÚNIOR

Advogado

Consultor em Segurança, Análise de Riscos, Inteligência e Contra-inteligência.

Delegado de Polícia
Civil do Distrito Federal Aposentado.

Mestre em Gestão do Conhecimento e Tecnologia da Informação na Universidade Católica de Brasília.
Pós-graduação (Especialista) em Gestão de Tecnologia da Informação na Universidade de Brasília UNB;
Pós-graduação (Especialista) em Inteligência Estratégica UNIEURO.
Pós-graduação (Especialista) em Polícia Judiciária na APC/UCB;
Graduação em Direito pelo Centro Universitário do Distrito Federal, atual UDF, 1987.

Formação Complementar
Advanced Management Course - International Law Enforcement Academy. EUA. 2007.
Curso Superior de Polícia. Academia de Polícia Civil do
Distrito Federal.
Curso de Operações de Inteligência. Vertente: Planejamento
de Operações de Inteligência. ABIN. 2000.
Curso de Procedimentos de Inteligência. Vertente: Análise.
ABIN. 2001.
Ciclo de Estudos de Política e Estratégia da Associação dos
Diplomados da Escola Superior de Guerra ADESG/UNB

Concentração de Estudos em Gestão do Conhecimento, Ciência da Informação, Inteligência Policial, Inteligência Tecnológica, Interceptação Telefônica e Ambiental, Cognição Investigativa, Análise de Vínculos e Inteligência Organizacional.

Autor dos Livros “A Inteligência e a Gestão da Informação Policial”, Editora Fortium, e, “Segurança Pública Inteligente” Editora Kelps.

Conferencista em vários Seminários e Eventos Nacionais e Internacionais sobre Segurança Pública. Palestrante e docente em diversos cursos de formação de agentes de segurança pública e em diversas Instituições de Ensino Superior (IES), mais recentemente do Núcleo de Estudos em Defesa, Segurança e Ordem Pública (NEDOP) do Centro Universitário do Distrito Federal (UniDF). Diretor Científico Adjunto do Instituto Brasileiro de Inteligência Criminal INTECRIM.

Coordenou e executou na Polícia Civil Distrito Federal importantes projetos na área de Tecnologia e Inteligência.

Comandou as ações Repressão ao Crime Organizado, Inteligência Policial, Operações Especiais, Repressão a Sequestros, Crimes Contra a Administração Pública, Crimes Tecnológicos, Análise Criminal, Planejamento e Logistica Operacional, Comunicação Organizacional, Controle de Armamento, Munições e Explosivos, Operações Aéreas e Delegacia Eletrônica.